Na fictícia Santo Antônio de Pádua, Vicente Volpin é uma espécie de Fiódor Karamázov com sangue vêneto, que trata as mulheres como predador e batiza os filhos com nomes bíblicos – conferindo-lhes alcunhas pejorativas da mesma origem.
Um deles, Paulo (ou Barrabás), em surdo embate com o patriarca perpassado em igual medida por fervor religioso e paixões carnais, é o narrador de Olhos negros, envolvente romance que marca a estreia na ficção de Marcelo Godoy.
Godoy lapidou seu estilo no jornalismo ao longo de décadas, tornando-se referência na crônica policial brasileira. Da publicística, levou a apuração rigorosa às páginas de A Casa da Vovó (prêmios Jabuti e Sérgio Buarque de Holanda) e Cachorros, que documentam a repressão no tempo da ditadura militar e simultaneamente narram a história política deste período, discutindo-a com base em sólido aparato teórico. São, em certo sentido, livros-matriochka, a exemplo de Olhos negros: se a folha de inquérito com que nos deparamos logo no

