“”Muito já se disse sobre o poder da literatura de transfigurar a realidade, dando inteligibilidade e sentido à massa caótica dos acontecimentos que constituem a vida humana. Em seu novo livro, Sob a leveza das asas da noite, Gabriela Guimarães Gazzinelli, diplomata de carreira e classicista de formação, promove essa transfiguração ao tratar de temas perenes – o amor, a morte e a poesia – por meio de antigas histórias.
Antes de sua estreia literária, a autora havia traduzido textos do orfismo (Fragmentos órficos, 2007); quase que ocultos, como convém, aliás, a mitos iniciáticos, esses textos estruturam a obra, que prende o leitor em um engenhoso eterno-retorno por meio do qual se revela o drama de Lia, Leda e Orfeu.
Mas é o ceticismo antigo que dá o tom (Gazzinelli publicou, em 2009, o livro A vida cética de Pirro): a transfiguração narrativa é continuamente construída e posta em xeque pelos personagens – o esteticismo hedonista que alguns deles adotam como modo de vida (o pegacionism

